As idéias de Furlan - José Nivaldo Cordeiro
O ministro Luiz Fernando Furlan deu entrevista publicada hoje no "Estadão". Ela é bem interessante porque expressa, para além de todas as teorias econômicas, o que pensa a nossa elite industrial. As principais idéias são as seguintes: 1- O real precisa ser desvalorizado para empurrar as exportações; 2- Os juros altos são ineficientes no ataque à alta dos preços administrados; 3- O Mercosul tem que ser revisto e o Brasil deve se abrir aos países ricos.
Até as pedras sabem que o real está valorizado porque estão sendo gerados grandes superávits na balança comercial e estão chegando capitais para serem aqui investidos. É a lei da oferta e da procura em ação. Não é possível coibir essa apreciação exceto se alguma medida heterodoxa vier a ser adotada, o que seria artificial e nocivo, a médio e longo prazo. É um movimento cíclico que compensa a si mesmo. Não é possível combinar grandes entradas de dólares com estabilidade no câmbio.
Sou favorável a que o Brasil mantenha um patamar razoável de reservas internacionais. A nossa história econômica mostra que não dispor de reservas em tamanho proporcional às necessidades estratégicas têm jogado o país recorrentemente em crises no balanço de pagamentos internacionais. Uma política de recomposição de reservas, de compra de dólares, deve ser feita, mas dentro do orçamento aprovado pelo Congresso e com recursos oriundos da arrecadação tributária, evitando o perigo da inflação. Penso que chegar a um volume em torno de US$ 100 bilhões, em um prazo não muito curto, é algo a ser pensado e executado. Um volume de reservas dessa envergadura daria ao Brasil uma grande tranqüilidade nas suas relações internacionais.
Com relação aos juros internos, o raciocínio do ministro está pela metade. Além de tentar controlar a inflação, as elevadas taxas servem para deprimir o mercado interno, permitindo maior oferta de produtos exportáveis. Além disso, não é possível dissociar a taxa de juros do tamanho alcançado pela dívida pública. Aqui é preciso também a execução de uma política de superávit primário que efetivamente reduza a dívida nominal. Um único semestre com uma política assim alinharia a taxa de juros internas com aquelas praticadas no mercado internacional.
É preciso lembrar também que os preços administrados puxam a inflação, mas em boa parte são determinados pela enormidade da carga tributária. Na raiz de nosso processo inflacionário está a exorbitância do ente estatal. O ministro sabe disso, mas a sua posição certamente o impede de tocar nesse assunto, que é tabu.
O Mercosul não é nada, é uma perda de tempo para um país como o Brasil, que já deveria ter ingressado na Alca e ter ampliado suas relações com a Comunidade Européia. O ministro está certíssimo. O problema é que o governo Lula se move ideologicamente, ficando impedido de praticar os atos racionais necessários. Seu esquerdismo tem sido mais acentuado nas relações internacionais.
Enfim, o ministro é sensato, embora peque pela tradição patrimonialista da nossa elite econômica, que sempre espera proteção do Estado contra os consumidores, demandando decisões que freqüentemente contrariam o bom senso e a própria teoria econômica. Assim nos juros como no câmbio.
* José Nivaldo Cordeiro é economista e mestre em Administração de Empresas na FGV-SP.
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