26.11.05

Economicismo, a ilusão mortífera - Diário do Comércio

A liberdade econômica tem sido há mais de um século a causa pela qual se bate a Associação Comercial de São Paulo. Hoje mais do que nunca essa causa tem de ser defendida contra os apóstolos do Estado onipotente, os comedores de impostos, os proxenetas da miséria gerada por eles próprios. Nesse combate, muito se têm empenhado os empresários brasileiros, com o auxílio de vigorosos jornalistas e brilhantes estudiosos universitários.

No entanto, algumas ilusões debilitam essa tropa valorosa. A principal delas, a mais mortífera, é a de que a liberdade econômica pode ser defendida sozinha, isolada das condições políticas, culturais e morais que a geraram e que tornam possível a sua subsistência.

A ênfase unilateral nos argumentos econômicos, obtendo triunfos demasiado fáceis sobre as pretensões decrépitas do socialismo, leva a confundir o mero sucesso acadêmico com a vitória na vida real. A desmoralização do socialismo enquanto teoria não o impede de continuar crescendo como militância e de ampliar indefinidamente seu poder organizado, justamente porque a exaustão mesma da sua substância intelectual facilita a sua condensação em fórmulas verbais de grande impacto emocional, contra as quais a argumentação racional pouco vale.

Por outro lado, a insistência no enfoque econômico isolado reflete o enfraquecimento cultural do discurso capitalista, que abandona a riqueza dos valores éticos, religiosos, intelectuais e políticos que lhe são inerentes e cede ante a exigência marxista de fazer do fator econômico a origem e o fundamento explicativo da História humana.

De que adianta à argumentação pró-capitalista sair vencedora na prova deste ou daquele ponto em particular, se essa prova traz de contrabando a anuência implícita e às vezes inconsciente à premissa geral do adversário, que deveria ter sido refutada em primeiro lugar?

Numa irônica inversão de papéis, a concentração exclusiva na superioridade econômica do capitalismo dá ainda a um adversário tradicionalmente materialista e ateu o privilégio de posar como porta-voz único e exclusivo das preocupações nobres, enquanto o advogado da democracia capitalista, portadora dos valores espirituais mais altos da humanidade, passa por ser um filisteu que só pensa em dinheiro.

Por fim, a obsessão economicista envolve um risco político-estratégico que beira o suicídio. Conscientes de que a revolução que preconizam não avança uniformemente em todos os campos, mas procede por avanços e recuos, fintas e rodeios, os adeptos do socialismo e do estatismo anestesiam a classe empresarial com concessões que a satisfaçam momentaneamente na esfera econômico-financeira, ao mesmo tempo que a militância esquerdista organizada avança na ocupação voraz de todos os espaços públicos não diretamente colocados sob a atenção empresarial.

Tranqüilizada pela aparente conversão da esquerda às vantagens do capitalismo, a classe empresarial se vê de repente cercada, acossada pela opressão esquerdista, sem saber explicar como pôde cair numa armadilha que até poucos minutos antes lhe parecia apenas o fantasma evanescente de um passado extinto.

O economicismo é a doença infantil da ideologia capitalista. A luta pela economia de mercado tem de ser empreendida em todos os fronts – político, moral, cultural, educacional, religioso – ou contentar-se com uma vitória parcial que é a camuflagem provisória da derrota total.



Publicado pelo Diário do Comércio em 12/09/2005.