19.11.05

Para enfrentar Lula, Alckmin é melhor candidato

Por Gustavo Noblat, repórter do blog:


A não ser que “uma bomba atômica caia no Palácio do Planalto”, ou que surja uma denúncia de que Lula se beneficiou “pessoalmente” de alguma irregularidade, o mineiro Marcos Coimbra, sociólogo, fundador e presidente do Instituto Vox Populi de Pesquisa de Opinião, não vê chances de Lula desistir da reeleição.

Em entrevista ao Blog do Noblat, ele diz que “salvo uma inesperada mudança”, José Serra e Geraldo Alckmin do PSDB são os únicos “adversários para valer de Lula”.

Para Coimbra, os atuais escândalos políticos fizeram o PT perder sua "diferença", mas “seus bons candidatos” ainda serão eleitos. Quanto a Lula, “talvez tenha perdido mais”, pois para “alguém com a imagem dele” é preciso ter uma "turma boa, de gente competente e séria”. O Lula agora é alguém com “boas intenções e extraordinária biografia, mas sozinho".

Você ainda aposta na vitória de Lula na próxima eleição?

Não, pois ainda pode haver "fato novo", como tem havido em abundância nos últimos meses. O que se pode dizer é que, apesar de todo o desgaste, no quadro de hoje, Lula continua muito forte e deve disputar um segundo turno contra o candidato do PSDB, com chances de vitória, que podem ser maiores ou menores em função de como seu governo estará em outubro próximo e de quem será seu adversário.

A crise política acabou com as chances de Lula se reeleger em primeiro turno?

Sim. Elas nunca foram muito elevadas, mas existiam. Lembremos que nem no auge de sua boa imagem, na época do "Lulinha, paz e amor", ele conseguiu maioria no primeiro turno. Desde o episódio Waldomiro Diniz, essas chances foram se reduzindo. Hoje, me parecem nulas.

O PT sairá menor das próximas eleições?

Certamente. Muitos eleitores votaram, no passado, baseados em um conceito que desapareceu, o da "diferença" do PT em relação aos demais partidos. Isso não só fez crescer o voto de legenda, que é uma espécie de "cheque em branco" para o partido, como levou muitas pessoas a limitarem aos candidatos do PT sua pesquisa sobre em quem votar. Não parece, contudo, que alguém vá herdar esse tipo de eleitor, ou seja, a perda que o PT sofre não se transformará em vantagem para ninguém. Nas próximas eleições, os candidatos do PT serão como os outros - quem tiver um bom trabalho, será votado; quem não tiver, não terá onde se escorar.

Que adversário pode derrotar Lula?

Nada sugere que o quadro da eleição de 2006 esteja "aberto", como estava, por exemplo, o de 1989 no final de 1988. Salvo uma inesperada mudança, portanto, os adversários para valer de Lula são apenas dois: Serra e Alckmin. Qualquer um deles poderá derrotar Lula.

Até aqui, Lula conserva pelo menos os 30% de intenção de votos que sempre foram dele a cada eleição. Você acha que a tendência dele no momento é de queda ou de alta?

De alta no quadro de hoje e supondo que não ocorram "fatos novos" de grande expressão no horizonte. Lula tende a se beneficiar de vários fatores, de agora até o ano que vem: o cansaço da opinião pública com a crise, a natural melhora de ânimos do fim de ano, a aparente solidez da economia, a tendência de aumento dos programas sociais. Tudo isso somado permite imaginar que ele chega mais forte em outubro de 2006 do que está atualmente.

O desdobramento da crise pode levar Lula a desistir da reeleição? Se isso acontecesse qual seria o melhor nome no PT para concorrer à presidência?

Não creio, a menos que uma bomba atômica caia no Palácio do Planalto - uma denúncia muito sólida (e na qual a população acredite) de que ele se beneficiou, pessoalmente, de alguma irregularidade. Como não acredito que isso ocorra, acho que ele é, de longe, o melhor nome do PT. Fora ele, a única opção que me parecia possível até outro dia era o ministro Palocci.

Quem perdeu mais com a crise, o PT ou Lula?

Os dois. O PT perdeu sua "diferença", mas seus bons candidatos continuarão a serem votados. Lula, no entanto, talvez tenha perdido mais. Para alguém com a imagem dele, era muito importante ter uma "turma" boa, de gente competente e séria. Sem ela, ele fica "sozinho", uma pessoa com boas intenções e extraordinária biografia, mas "sozinho". Os efeitos disso nas avaliações do eleitorado ainda são desconhecidos, pois, por melhores e mais profundas que sejam a pesquisas atuais, elas não conseguem fazer o impossível - ou seja: que o eleitor diga hoje, "longe" da eleição, o que ele só vai saber no dia primeiro de outubro de 2006.

Alguém fora do eixo PT-PSDB tem chances de se eleger presidente em 2006?

Não. O quadro de opções possíveis é muito pequeno, por diversas razões. A mais importante, hoje, me parece ser a força que Lula preservou apesar de tudo. Ela o estabelece como um nome "certo" no segundo turno e leva as oposições a buscar, desde logo, um nome também forte. Isso desencoraja novidades, seja no governo, seja na oposição, e deixa pequena margem para projetos alternativos.

Alckimin ou José Serra? Em médio prazo, quem teria mais chances para derrotar Lula?

Creio que o nome de maior potencial é o do Governador Alckmin, mesmo que Serra largue melhor nas pesquisas atuais. Alckmin tem várias vantagens: sua administração é muito bem avaliada, está em "sua hora", é uma "coisa nova", que não remete ao passado. Serra, apesar de muitas qualidades, teria dois problemas: ser mais identificado com uma "volta" e ter de deixar a prefeitura de São Paulo "cedo demais", repetindo seu enfrentamento com Lula com praticamente a mesma biografia de 2002.

O que Serra tem hoje de intenção de votos é mais recall da última campanha ou é patrimônio consistente dele?

Serra tem, fora de São Paulo, quase que somente a imagem de um bom ministro da Saúde e sua vitória na eleição mais importante de 2004, sozinha, pouco acrescenta a ela. Para um eleitor de classe popular no Norte, Nordeste, do Sul, do interior de Minas, por exemplo, Serra teria que ser "reapresentado" e pouco além do que ele foi no governo FHC se teria para dizer dele até outubro próximo.

Que chance Fernando Henrique teria de derrotar Lula na próxima eleição?

Nenhuma, no quadro atual. Embora a História, provavelmente, venha a lhe fazer justiça no futuro, o ex-presidente tem hoje imagem muito negativa para a maioria do eleitorado, especialmente popular. Ele ficou "tempo demais" e não deixou saudade.

A eleição de 2006 será como a de 1989 quando a maioria dos partidos políticos apostou em candidatos próprios?

Me parece que não. Com um Presidente em exercício e com força muito razoável, e com as oposições tendendo a uma coalizão desde já, o espaço restante é pequeno. O único candidato com alguma expressão fora dessa polaridade é o ex-governador Garotinho. Ele, no entanto, teria que ser muito maior do que aparentemente é para levar a vasta e heterogênea nau do PMDB para seu projeto.

Se quiser ter candidato próprio e com chances de ir para o segundo turno, o PMDB pode dispor de outro nome que não seja o de Garotinho?

Sobre Garotinho, pesa problema parecido ao de Serra: ele é conhecido e, por isso, se sai bem em pesquisas atuais, mas parece ter "teto baixo". Se fosse candidato, nada além do que disse em 2002 teria para acrescentar, sem contar os desgastes da situação atual do Rio. Se optasse por outro nome, o PMDB poderia se rejuvenescer para a eleição.

Heloísa Helena, candidata do PSOL a presidenta da República, deve ter um bom desempenho na próxima eleição ou ainda é muito cedo para prever?

Creio que ela será uma surpresa. Em parte por razões "ideológicas", como possível herdeira de um voto de "esquerda" descontente com Lula, em parte por motivos pouco ou nada ideológicos, como a atração de muitos eleitores por uma candidatura feminina, ela deve crescer. Sua imagem de combatividade e rigor político, somadas aos atributos que normalmente se associam mais às mulheres (seriedade, honestidade, responsabilidade), devem impulsionar sua candidatura.

Que temas ou aspectos deverão ditar o voto para presidente em 2006?

É evidente que todos os candidatos farão a mais veemente defesa da moralidade e assumirão o mais forte compromisso de lutar contra a corrupção. É também evidente que quase ninguém vai acreditar neles. Restam as imagens que o eleitor de fato identifica com cada um: o "empenho" de Lula em melhorar a vida dos mais pobres, a "gestão moderna" dos candidatos do PSDB, a difusa "política social" de Garotinho, a "coragem" de Heloisa Helena, etc. No mais, os temas serão praticamente os mesmos, não fossem unânimes as pesquisas quando identificam a pauta de expectativas e desejos do eleitor: emprego, saúde, segurança, boas escolas.


* Texto/entrevista retirada do "Blog do Noblat" (http://noblat1.estadao.com.br/noblat)