Riqueza Global e Wal-Mart - J.O. de Meira Penna
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| O título acima é uma paráfrase do artigo de Gilberto Dupas no ESTADÃO de 1º do corrente. Presidente do Instituto de Estudos Econômicos, o ilustre professor me desperta uma angústia que não consigo superar. A que devemos atribuir argumentos como os seus? À simples ignorância, à mendacidade deliberada que tem origem na Ideologia viciosa da elite intelectual uspiana, ou à ingenuidade bom-mocista do romantismo humanitarista que por toda a parte só vê miséria? Basicamente, o que Gilberto Dupas pretende é o reforço banal de um lugar-comum no esquerdismo brasileiro: a humanidade está empobrecendo como resultado da globalização. Para isso, põe em dúvida os dados do Banco Mundial, que obviamente detesta, sem esclarecer quais são suas outras fontes. Por seus cálculos, o PIB brasileiro estaria caindo pois, após atingir mais de US$800 bilhões ao tempo da inauguração do Real (R$1,00 = US$1.00), seria hoje de pouco mais de 500 bilhões. Em tais condições, a população brasileira não só empobreceu, a redução de sua renda seria mesmo catastrófica. Ora, embora Dupas reconheça o crescimento da economia chinesa, não se dá conta, como devia faze-lo, que China e Índia, representando quase um terço da população mundial e sempre descritas como paradigmas da extrema miséria, se colocam hoje como a segunda e a quarta (detrás da Alemanha) potências econômicas do mundo, ambas com índices espantosos de crescimento, sendo seu progresso o resultado direto de investimentos europeus e americanos num mercado capitalista que é fruto da globalização. As cifras que valem se encontram no World Development Indicators desse mesmo Banco Mundial e levam em conta o critério do p.p.p. (purchasing power parity), o poder de compra das respectivas moedas, cuidadosamente calculado com os dados fornecidos pelo Tesouro dos próprios estados membros. Não sendo economista, me sustento no bom-senso e nesse método de avaliação que o eminente e Coordernador Geral de um grupo de estudos despreza. Reconheço como da maior relevância o critério adotado pelo Banco Mundial. É evidente que, mesmo admitindo esteja a opinião pública brasileira consciente da estagnação da economia nos nove últimos anos de governo FHC e Lula, não creio que pessoa alguma se atreveria a pretender seja o descalabro tão horrendo quanto Dupas imagina. Por exemplo: minha aposentadoria é hoje, em termos de dólares, menor do que era em 1986, mas financeiramente não estou em pior estado do que há 18 anos. Não vejo empobrecimento à minha volta mas prosperidade. O “número de miseráveis” não está aumentando no mundo. Será que passou realmente de 862 milhões para 891 como afirma, e a culpa é da globalização? Não somente da globalização mas da concentração de renda simbolizada pelo Wal-Mart, “o novo ícone do capitalismo global”; “a maior e mais bem sucedida corporação global”? Será que o salário médio mensal dos empregados da empresa de US$1,500.00, o que quer dizer mais de dezeseise vezes o salário mínimo brasileiro, deva ser qualificado como no “limite da pobreza”? Não importa que o número de pessoas que possuem ações da Wal-Mart é maior do que o de seus empregados? Vê-se logo que o propósito do cartola uspiano é demonstrar a correção dos dois maiores preconceitos fantasmagóricos do Marxismo ortodoxo: a inevitável pauperização das massas trabalhadoras e a progressiva concentração da fortuna em poucas mãos – falsidades que, século e meio depois do Manifesto Comunista, se revelaram como o mais primário, evidente e escandaloso erro do profetismo marxista. O que respeitável investigador das Tensões entre o Público e o Privado jamais conseguiu atinar é com as simples regras do mercado - quer dizer, com as leis básicas de funcionamento que até o último chefão da falecida URSS, Gorbachov, definia como “a economia natural”. Num mercado livre o que se procura é o máximo de produção de mercadorias vendidas pelo preço mínimo para alcançar o máximo de consumo. Conseguindo o propósito de baratear as inúmeras mercadorias que oferece, o Wal-Mart não é admirado porque se especializa em vender produtos de baixo valor unitário, mas julgado pejorativamente porque estimula uma coisa feia: o “consumismo”. Vender barato é prova do caráter pecaminoso da empresa – justamente porque, num regime comunista como o da defunta Rússia soviética (e da Polônia onde servi), aquilo que se revelava como impossível de calcular e fornecer era justamente o produto de consumo de pouco valor para as exigências privadas da grande maioria da população de baixa renda. Em conclusão, o que para um economista do calibre do eminentíssimo professor Dupas o que não deve existir é um mercado livre. É uma sociedade carcerária que existe para benefício de sua Nomenklatura privilegiada. *J. O. de Meira Penna Diplomata, tendo ocupado vários cargos no exterior e chefiado sete embaixadas brasileiras. É também escritor e jornalista, com mais de 20 títulos publicados, como "Em Berço Esplêndido", "O Espírito das Revoluções", "O Dinossauro", "Opção Preferencial pela Riqueza" e "A Ideologia do Século XX". |
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