19.11.05

A SAIDA SOCIAL-LIBERAL - Collor

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Liberdade econômica e promoção social.

Eis a chave para o coroamento da proposta liberal: o compromisso com a solução dos gravíssimos estigmas sociais sociais que angustiam e penalizam grande parte da humanidade.

Chegou-se ao quase final deste século, marcado por duas grandes guerras, por uma série quase interminável de conflitos e por lutas ideológicas, temendo-se o esfacelamento dos principios liberais e, consequentemente, o colapso de uma sociedade democrática e livre. Afinal, a divisão do mundo e a difusão do pensamento Marxista-Leninista de forma tão vigorosa, nos deixava entrever esta possibilidade.

Mals eis que o inesperado dos aconteclmentos de 1989 e a velocidade das mudanças ocorridas a partir daí, reverteu aquela expectativa sombria e veio reafirmar a proposta liberal, embasada na democracia e economia de mercado. Hoje, esta é uma tendência universal que já alcança espaços geográficos importantes, de maneira rápida e contundente.

Este aparente fenómeno tem um fundamento: o liberalismo, antes de doutrina, é sentimento. Está enraizado na natureza humana, porque encarna um valor inestimável que rege a nossa existencia: a liberdade. Ela é tão importante para o nosso espírito quanta a pele para o nosso corpo - sem elas não podemos viver em plenitude. É ela, a liberdade, em sua real dimensão, a essência da proposta liberal, a sua força e a sua razão de existir.

Assim, apesar de se ter chegado ao final deste século com a sensação da vitória do consenso liberal-democrático, não se poder acomodar nem muito menos se iludir com este sucesso. Há muito por fazer. Até porque, pegunto-me, se para esta vitória não teriam contribuído decisivamente os erros e os equívocos de uma doutrina da ilusão, que se esvaneceu com o tempo, independentemente dos méritos liberais?

Por isso, coloca-se agora, mais que nunca, este enorme desafio ao mundo livre e democrático: vincular a prosperidade econômica ao imperativo da promoção social.

Não há mais tempo a perder!

0 ressurgimento entre nós de uma certa cultura de remorso social, que no mais das vezes se degrada em demagogia, não basta para atenuar o drama do cotidiano de nossos semelhantes, espalhados pelos quatro cantos do globo. É preciso mais, muito mais!

É preciso aprofundar a reforma liberal com redobrada atenção, de forma acurada, procurando realizá-la sem um custo social perverso. lsto significa que deve-se continuar trabalhando, sem a perigosa e preguiçosa indulgência nem a indecisão ou meias-medidas, que são as nossas maiores adversárias. Sobretudo, sem temer os reptos, até porque a coragem de fazer deve ser sempre maior que o medo de errar.

Agora, às vésperas da abertura de uma nova era, que esperamos seja mais generosa para com a humanidade, é necessário que se reflita sobre o encaminhamento das soluções para o enorme contencioso da agenda social das Nações.

O século XX, prestes a se findar, ficou a nos dever o que se esperava fosse seu grande legado: ao lado da afirmação dos princípies liberais, uma fórmula que impedisse, quando pouco, a proliferação da miséria em nosso planeta.

O século XIX, com a revolução industrial e todos os seus desdobramentos, mudou o conceito de produção e as relações do trabalho-capital. Foi o século do avanço econômico.

O século XVIII nos legou os princípios basilares do direito e de justiça, sobre as quais se assenta a moderna democracia. Foi o século do avanço político.

Para o século atual, era de se esperar, pois, que se completasse o trinômio, com o ingrediente do avanço social, o que não ocorreu. Daí a necessidade de se estabelecer de pronto, no seio da comunidade internacional, o compromisso com as gerações futuras, corn base numa agenda criteriosa que proporcione um debate sério, responsável e consequente. Que este debate traga propostas objetivas de solução de problemas que vão desde a fome, a falta de acesso à educação, à saúde e ao trabalho, passando pelo meio ambiente, atingindo questões comerciais e tecnológicas e chegando ao recorrente tema da dívida externa, cujo peso sobre a economia de países considerados de quarto mundo é, como se sabe, esmagador.

Que o século XXI cumpra este dever!


Fernando Collor
É ex-presidente do Brasil