Sobre o Cálculo do PIB - J.O. de Meira Penna
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| Enfrento dificuldades com amigos que, pouco entendendo de economia, se dedicam a lucubrações apocalípticas sobre a conjuntura nacional na base de dados incorretos do PIB brasileiro. Confesso que tampouco sou economista. Sou mesmo algo avesso à “ciência medonha” de Carlyle, que amedronta muita gente e provoca reações espavoridas. Entretanto, é necessário compreender a força de nosso poder produtivo antes de argumentar, bem ou mal, sobre o que se passa. Para início de conversa, verifica-se que o cálculo do PIB é realizado pelo IBGE e encaminhado ao Banco Central onde técnicos, competentes e dedicados. o analisam, publicando, mensalmente, o resultado em seu Boletim e, no Relatório Anual. De lá é encaminhado a outras instituições, públicas e privadas, para divulgação e orientação, assim como ao Banco Mundial onde, convertido em dólares, sofre do mesmo modo exame complexo, destinado a estabelecer um resultado preciso do poder econômico de cada Estado-membro. As grandes discrepâncias que se nota nos documentos oficiais e notícias de jornal, entre “entendidos” (ou pouco-entendidos) que usam os resultados para projeções tendenciosas e divagações de ordem política, resultam de métodos diversos de interpretação das cifras fornecidas. A forma mais simples e preguiçosa consiste em converter o resultado em $Reais, alcançado pelas duas instituições brasileiras, dividindo o total pelo câmbio do dia em dólares. Afirma-se então que o PIB brasileiro atingiu um pico de US$808 bilhões em 1997, caindo progressivamente nos anos seguintes até US$451 bilhões em 2002. A queda aparente verificada seria então de 34,5%, embora tenha o PIB brasileiro, na realidade, registrado o modesto crescimento de 6,8% no período 97 a 2001. Como o câmbio do real se tem destacado, nestes últimos anos, por sua extrema variabilidade, a confusão imediatamente se estabelece. Só para dar um exemplo. Em 2001, o BC divulgou que o PIB brasileiro era de US$510 bilhões de dólares - soma inferior ao do Canadá (US$681 bilhões) e do México ($550 bilhões). Deus nos acuda! O motivo é simples. O real sofreu de início uma pequena valorização quando foi criado, sendo FHC Ministro da Fazenda. Naquela oportunidade, determinada a paridade dólar=real, nossa moeda permaneceu sobre-valorizada por algum tempo, mas sofreu progressiva desvalorização a partir de 1999, o que se traduziu, evidentemente, por uma redução proporcional do PIB em termos de dólar, junto com forte incentivo à exportação. Considerem entretanto que, há um ano, o valor de nossa moeda em relação ao padrão americano caíra para 3,9 reais por US$dólar, enquanto está hoje por volta de 2,88. Na perspectiva de um petista entusiasta que ignore o joguinho do PIB, a evidência seria ofuscante de um sucesso fenomenal da atual administração financeira do país. Um espanto de tal ordem que o aparente crescimento do PIB, em dez meses, elevaria às nuvens a competência e dedicação de nosso amado Papai Noel. Estaríamos recebendo, antes do Natal, um presente inconcebível pois, em dez meses, teria o Brasil realizado o que os militares, com suas receitas ortodoxas, levaram cinco anos para alcançar no propalado “milagre brasileiro”! Creio, porém, que com uma explicação primária, quase infantil, o leitor terá percebido a existência de um jeito, mais objetivo e preciso, de apreciar o PIB independentemente do valor cambial do dólar em relação ao R$. A maneira correta é a dos técnicos do BC. Seus resultados são transmitidos ao World Bank que publica, anualmente, o Relatório, World Development Indicators, disponível nos pontos de venda das publicações da ONU. O mais recente, de 2003, fornece o cálculo do PIB através do que chama purchasing power parity, ppp, “paridade do poder de compra” da moeda, cuja definição é bastante complicada e fruto de minuciosos estudos. Segundo esse critério, o PIB brasileiro em 2001 foi de $1,219 trilhões de dólares, com percapita aproximado de US$ sete mil. Seríamos, ao que consta, a oitava potencia econômica do planeta, com PIB pouco inferior ao italiano, quase o dobro do mexicano e superior aos da Rússia e Canadá. Num Produto mundial de US$37 trilhões (ou, aproximadamente pelo PPP, de 65 trilhões), a atual colocação seria a seguinte: EUA, China, Japão, Índia, Alemanha, Grã-Bretanha e França (mais ou menos igual), Itália e Brasil. Mas atenção: nosso problema é o baixo crescimento da economia. Poderemos em breve perder a corrida para a Rússia, a Espanha e o próprio México. A economia se encontra quase estagnada graças às benesses da Nova República e sua maravilhosa Constituição! Enquanto aqueles países crescem, o Dinossauro orçamentívoro do Estado tupiniquim chafurda no lamaçal e na pasmaceira. A salvação está não obstante esmagada pelos impostos, no setor privado. *J. O. de Meira Penna Diplomata, tendo ocupado vários cargos no exterior e chefiado sete embaixadas brasileiras. É também escritor e jornalista, com mais de 20 títulos publicados, como "Em Berço Esplêndido", "O Espírito das Revoluções", "O Dinossauro", "Opção Preferencial pela Riqueza" e "A Ideologia do Século XX". |
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