As tragédias de Olga
WILLIAM WAACK Rio, 06 de setembro de 2004 OPINIÃO O Globo
São quase lugar-comum livros e filmes que romanceiam figuras da História, tornando-as maiores do que o foram em vida. Espantoso no caso do filme “Olga”, baseado em livro do mesmo nome, é que a figura real de Olga Benário foi diminuída, especialmente a tragédia que ela viveu.
Não importa aqui o fato de que as versões romanceadas de Olga Benário baseiam-se em biografia e fatos manipulados (com exageros, omissões e invenções) pela propaganda do extinto Partido Comunista da extinta Alemanha Oriental, preocupada em formar a imagem de uma heroína encaixada na “linha correta” determinada por burocratas frios e medíocres. Todo responsável por versões romanceadas tem o direito de construir como quiser seus personagens, mesmo sabendo que está assumindo distorções criadas por outros.
A Olga que realmente existiu é muito superior à personagem Olga das telas, e nem mesmo um diretor talentoso como Jayme Monjardin conseguiu fugir à armadilha preparada pelo roteiro. O mundo em que a Olga real viveu não era preto-e-branco — ali os vilões nazistas, aqui os mocinhos comunistas. Ao contrário, uma parcela vigorosa de militantes do PC alemão (aliás, os que representavam as melhores tradições intelectuais do partido) já fora expurgada nos anos vinte por se opor ao corrosivo domínio do próprio partido alemão exercido pelos serviços secretos e polícia política soviéticos. Olga, uma militante de precária formação e pouco interesse por teorias, fazia parte do “aparato M”, a estrutura policial interna do PC alemão diretamente comandada por soviéticos. Um dos “expurgados” nas lutas internas, Arthur Ewert, seria, aliás, um dos seus chefes no Rio.
Para milhares de militantes políticos daquela época (mas não só), a “causa” pela qual acreditavam lutar, com maior ou menor dose de romantismo e entusiasmo, teve de ser sacrificada aos interesses e ditames do Partido, e essa foi a primeira tragédia na qual Olga se meteu. Ela jamais duvidou de ordens superiores e jamais as discutiu — ao contrário de Arthur Ewert, que ao lidar com as previsíveis desastradas conseqüências da aventura de Luís Carlos Prestes no Rio, em novembro de 1935, sabia que estava agindo contra a própria consciência (Ewert foi vítima de uma triste ironia da História: levado à loucura pela tortura infligida pela polícia de Getúlio e, sem nunca mais recuperar a consciência, passou os últimos anos de sua vida sendo mencionado como exemplo vivo de martírio, na Alemanha Oriental, pelos colegas de Partido que o haviam feito cair em desgraça).
A segunda tragédia na qual Olga se envolveu foi acreditar na capacidade de liderança, sabedoria política e perícia militar de Luís Carlos Prestes. A extraordinária incompetência do comandante do movimento de 35 está registrada em Moscou em todos os seus fascinantes detalhes — mas a culpa, tiveram de assumir, ou foi atribuída aos subordinados na cadeia de comando, e aos companheiros de Olga que conseguiram escapar da polícia brasileira e foram fuzilados ao retornar à União Soviética.
Os chefes nunca erram, o que talvez explique por que militantes brasileiros, agindo sob as ordens de Prestes (e apoiado por Olga), concordaram em assassinar uma moça inocente, Elza, que o chefe do aparato soviético clandestino no Rio, um agente da polícia política de Stalin, achava que poderia comprometer os “estrangeiros” participando da operação de 35, entre eles a militante alemã — mais uma tragédia.
Nada disso diminui a tragédia pessoal que se abateu sobre Olga, ao ser presa, deportada e entregue à Gestapo. Diante do velho inimigo, ela mostrou a coragem e a conduta que se esperava de militantes disciplinados como ela (suas cartas a Prestes eram primeiro enviadas a Moscou). Por estar presa, talvez Olga não soubesse do destino que Stalin reservara para quase todos seus ex-comandantes, soviéticos e alemães, além de dezenas de camaradas com quem conviveu no célebre Hotel Lux: a morte.
Os soviéticos nem responderam aos pedidos de D. Leocádia, mãe de Prestes, para que tentassem a troca de Olga por algum prisioneiro. Só muito mais tarde soube-se a razão: os soviéticos, naquele mesmo momento (final da década dos trinta), estavam entregando comunistas alemães para a Gestapo, impedindo que Getúlio ficasse sendo o único a mandar comunistas para os braços dos nazistas.
Uma das amigas de Olga, alemã exilada em Moscou, e que estava sendo preparada para substituí-la no Brasil, ainda a encontrou no campo de concentração no qual foi assassinada em 1942 — a amiga de Olga, como dezenas de outros, fizera parte de uma das “entregas” da NKWD (a polícia política soviética) para a Gestapo.
Não sabemos o que Olga teria dito se tivesse vivido para ver o marido e pai de sua filha, apenas dez anos depois, no mesmo palanque do homem que a mandou deportar. Foi a última tragédia envolvendo Olga, o fato de as razões políticas do partido terem feito Prestes, na prática, perdoar em público o algoz de sua mulher.
Aí está o significado atual, a mensagem que as tragédias de Olga trazem para o Brasil de hoje. Não é a mensagem do “ímpeto romântico pelas causas sociais”, deturpada no caso de Olga por máquinas burocráticas que reduziram seus integrantes a meras engrenagens. É o fato de que o princípio da ação é a consciência, a própria consciência, e que a liberdade de cada um, para terminar usando uma frase da grande figura trágica da esquerda alemã, Rosa Luxemburgo, termina onde começa a do próximo.
* WILLIAM WAACK é um jornalista brasileiro, nascido em São Paulo e formado em Jornalismo pela USP. Cursou também Ciências Políticas, Sociologia e Comunicação na Universidade de Mainz, na Alemanha, e fez mestrado em Relações Internacionais. Tem quatro livros publicados e já venceu duas vezes o Prêmio Esso de Jornalismo: pela cobertura da Guerra do Golfo (1991) e por ter revelado informações sobre a Intentona Comunista de 1935, até então mantidas sob sigilo nos arquivos da antiga KGB em Moscou (1993).
Waack trabalhou em algumas das principais redações do Brasil, como o Jornal do Brasil, O Estado de São Paulo e a revista Veja. Foi editor de Economia, Internacional e Política. Atuou como secretário de redação, editor-chefe, e repórter, função em que ficou durante mais tempo.
Durante 20 anos, William Waack foi correspondente internacional na Alemanha, no Reino Unido, na Rússia e no Oriente Médio. Chegou a cobrir alguns dos principais acontecimentos internacionais nas últimas décadas, como a Guerra Fria, a Revolução no Irã, a derrubada do Muro de Berlim, a desintegração da União Soviética e o ocaso do socialismo na Europa.
Sempre como enviado especial, Waack participou da cobertura de oito conflitos e guerras: seis no Oriente Médio e dois nos Bálcãs. Desde 1996, trabalha para a TV Globo e voltou ao Brasil em 2000. Mais recentemente, tem trabalhado cobrindo crises em países sul-americanos, como a Colômbia e a Argentina, e várias séries especiais de reportagens para o Jornal Nacional, sobre assuntos como privatizações, pirataria e corrupção policial em São Paulo. Apresenta, desde Maio de 2005, também o Jornal da Globo (substituindo Ana Paula Padrão) que deixou a rede para ir para o SBT. Foi enviado aos E.U.A. pra cobrir a eleição que reelegeu Bush filho .E enquanto ele cobria a pré-reeleição de G.W Bush, ele lecionou na Universidade de Nova York. (wikipedia)
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