26.11.05

Lucro: a chave do progresso - João Luiz Mauad

Caminha escreveu que por aqui "em se plantando, tudo dá". Referia-se às nossas terras, é claro. Jamais poderia imaginar que aquela frase apologética com que definiu a terra onde Cabral acabara de aportar aplicar-se-ia tão bem às mentes do povo que ali viveria, cinco séculos depois. Ou alguém duvida que nas cabecinhas dessa inigualável gente brasileira "em se plantando tudo dá"?

Pois uma das sementes (plantadas, é claro, pelos semeadores do coletivismo) que germinou com maior sucesso na mente dessa gente foi a da aversão ao lucro. Este fato é, sem dúvida, um dos maiores responsáveis pela baixíssima produtividade da economia brasileira. Aqui por essas bandas todo empresário é ladrão, sonegador ou explorador do trabalho alheio. Os próprios empreendedores tupiniquins, talvez acuados pela fúria dos invejosos, parecem ter medo ou, na melhor das hipóteses, vergonha da palavra LUCRO.

Mas afinal, o que vem a ser o lucro? De maneira bastante simples, ele é um preço, tal qual os salários, os alugueres e os juros. Conforme a definição do Professor Walter Williams, o lucro é aquilo que ganham os empresários por desempenhar competentemente o seu papel de assumir riscos, inovar e tomar decisões. O bom empresário está ciente de que, após pagar os custos, juros, encargos, impostos e demais despesas pertinentes ao seu negócio, uma parcela das receitas deve restar, para o seu próprio benefício. Tanto maior será esta parcela quanto maior for a sua capacidade em satisfazer os consumidores com produtos ou serviços necessários e de boa qualidade. Além disso, quanto mais eficiente for o uso dos recursos disponíveis, maiores serão as suas chances de lograr bons êxitos.

Por outro lado, se as receitas não forem suficientes para cobrir todos os custos e deixar algum resultado, algo está errado com aquela empresa. Ou os seus produtos (serviços) estão perdendo a batalha contra a concorrência pela preferência do consumidor (queda nas receitas), ou está havendo mau uso dos recursos (aumento das despesas).

A luta pela sobrevivência nos mercados competitivos é, portanto, tão feroz que numa coisa somos obrigados a concordar com o discurso coletivista. Na maior parte do tempo o empresário (pelo menos o bom empresário) não pode se dar ao luxo de preocupar-se com o interesse social, mas única e exclusivamente com seus próprios interesses, sob pena de sucumbir ante a concorrência ou a ineficiência. No entanto, este egoísmo auto-protetor não impediu que os capitalistas tivessem criado, mesmo que involuntariamente, um mundo muito melhor para todos.

Graças ao individualismo "egoísta" e à sua obstinada luta pelo lucro, a imensa maioria dos nossos contemporâneos goza de um padrão de vida bem acima do que, há poucas gerações, era possível somente aos mais ricos. Essa busca constante pelo lucro foi responsável por quase todas as inovações tecnológicas que, de alguma forma, concorreram para satisfazer uma boa parte das carências das grandes massas.

Creio ser absolutamente inegável que o desenvolvimento da indústria do vestuário, a mecanização da produção e a melhoria do processamento e distribuição de alimentos têm, por sua própria natureza, beneficiado um público cada vez mais amplo. Além disso, saneamento, transportes, moradia, saúde, comunicações, lazer, enfim toda uma gama de benefícios até pouco tempo impensáveis são hoje uma realidade acessível à maioria do povo. Tudo isso graças ao desenvolvimento acelerado desencadeado pelo advento do capitalismo e pela busca incessante do lucro.

Por outro lado, não se tem notícia de qualquer bem de consumo criado no seio das economias coletivistas (ditas altruístas) que tenha trazido algum benefício permanente para a humanidade. Com exceção das máquinas de guerra, armas de destruição em massa, alguns aviões economicamente inviáveis e um horroroso automóvel Lada, nada de relevante eles produziram. Para piorar as coisas, esses mesmos experimentos de planificação econômica, passados e atuais, em que os tiranos a tudo controlam, o processo de mercado é inexistente e o lucro individual é proibido, redundaram sempre na escassez, no desabastecimento e na distribuição eqüitativa da pobreza.


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João Luiz Mauad é empresário e formado em administração de empresas pela FGV/RJ.