29.12.05

Cícero, defensor da República




Cícero, defensor da República

Cícero, o mais patriota dos oradores, passou a vida a exaltar os valores romanos, a trabalhar pelo orgulho dos cidadãos, elogiando-lhes a disciplina e o fervor essenciais na manutenção de um império tão poderoso como aquele que nascera e prosperara a partir da região do Lácio. O mérito de tudo, o que distinguia os romanos dos gregos, devia-se ao civismo dos seus homens públicos, capazes de sufocarem os prazeres pessoais e o cultivo da vida sossegada em função do interesse coletivo. Ele, por sua vez, politicamente, colocou-se como o escudo falante da república.

Houve sempre uma notável coerência no civismo dele. O regime vivia sob ameaças. Viu-se como um pastor atento em ter que afastar do redil, com o rodopiar ativo do seu cajado, os lobos famintos que o cercavam. Não cessavam nunca as ambições dos generais valentes que, arrastando atrás de si os ricos espólios dos povos vencidos, honrados com os louros das vitórias no exterior, queriam-na submetida, subjugada (como Sila fez e como Júlio César afinal conseguiu).

A vida e a morte nos Rostros




O Fórum de Roma, centro da vida de Cícero, era a grande praça ao ar livre da cidade. Ficava no cruzamento de duas avenidas, a Cardo e a Decumanus. Era lá que se encontrava a Cúria (onde se reunia o Senado), a Basílica (equivalente ao Palácio da Justiça), os templos dos cultos públicos (a Júpiter Capitolino e outras divindades), as termas que atendiam aos banhos e, por fim, o Rostrum, a Coluna Rostral, espaço especial usado para a oratória (*). Lá era o império particular de Cícero. A voz e a dialética dele, o furor com que se jogava sobre os adversários, extasiava os ouvintes. Cícero dominava o latim com ninguém até então o fizera. Trabalhador infatigável, deixou 834 cartas e 55 discursos, exercício que o intimou definitivamente com o idioma pátrio. Intelectualmente onívoro, nada lhe era estranho.

Se Júlio César a quem ele combateu foi tolerante com Cícero, Marco Antonio, o sucessor dele, não teve nenhuma complacência. Quando o triunvirato foi formado, ele exigiu o sacrifício de Cícero (um tempo antes o orador havia feito um discurso terrível, devastador, contra Marco Antonio, chamando-o de "beberrão licencioso"). Apesar de admirá-lo pela cultura e fervor cívico, Otávio concordou em colocá-lo na lista dos proscritos, o mesmo fez Lépido, o outro triúnviro. Ele que sobrevivera a ditadura de Sila, à guerra civil entre Pompeu e César, não conseguiu resistir aos novos leões que tomaram o poder depois do fim de César (assassinado dentro do senado no ano de 44 a.C.).

Para Cícero, todo o espaço em que ele até então atuara, o Forum, a Cúria, o Rostrum, "tornara-se absolutamente repulsivo". Simplesmente ele desanimara. "O estado de coisas” disse a um amigo, "é perfeitamente chocante. Não há nenhum caminho fora desse lamaçal; porque, se um homem com o talento de César fracassou, quem pode esperar sair-se bem?" O grande orador terminou sendo morto em fuga, no lugarejo de Philipica, na Grécia, em 43 a.C. Os sicários que o perseguiram, decapitaram-no e deceparam-lhe uma das mãos. Marco Antônio, para demonstrar a força da sua brutal vingança, ordenou então que aqueles despojos de carne e sangue ficassem expostos no Rostrum, A morte de Cícero assinalou o fim da república romana.

(*) O Rostrum (esporão de navio), era um espaço composto por cinco colunas formadas por esporões de navios inimigos capturados por Roma e onde havia um lugar especial para que os oradores pudessem apresentar sua causa em público.


Bibliografia




Cícero – Orações, Rio de Janeiro-São Paulo, Editores Jackson, 1964.

Cícero – Dos Deveres, São Paulo, Edições Saraiva, 1956.

Cícero – Da República, São Paulo, Edipro, 1996.

Cowell, F.R. – Cícero e a República Romana, Lisboa, Editores Ulissea,1967.

Plutarco – Vidas paralelas – Cicero, Barcelona, Editorial Planeta, 1990.